No último 13 de maio, a abPod completou 20 anos da sua fundação. Duas décadas. É um marco que merece pausa, e que talvez tenha passado sem o alarde que mereceria, porque associação séria raramente faz festa por si mesma. Mas vinte anos não é número pequeno em mercado nenhum, e muito menos no nosso.

Quando a abPod foi criada, o podcast brasileiro mal sabia o que queria ser. Era uma mídia tateando seu próprio formato, sustentada por entusiastas que produziam no improviso, com microfones modestos e a teimosia de quem acreditava antes que houvesse mercado para acreditar. A entidade nasceu junto com essa cena, e por muito tempo carregou as mesmas marcas dela: pouco recurso, muita vontade, gestão voluntária entre estados distantes, ciclos de mais energia e ciclos de menos. Em cada um desses ciclos, sempre teve alguém disposto a segurar a chama acesa até que outra mão chegasse para continuar.

Acompanhar a história da abPod é também acompanhar a história da profissionalização do podcast no Brasil. Saímos de uma podosfera de hobby para um mercado com plataformas robustas, redes de produção, jornalismo especializado, contratos publicitários, audiência mensurável e dados que sustentam decisão. A PodPesquisa virou referência. Veículos como a CastNews passaram a documentar o setor com olhar editorial sério. Quem ouve podcast hoje no Brasil chega aos 31,9 milhões. Quem produz divide tempo entre criar conteúdo e operar como negócio. A mídia se profissionalizou, e a abPod, no seu ritmo possível, foi se profissionalizando junto.

Dentro dessa trajetória, um capítulo recente me toca particularmente: a formalização da entidade. Conseguimos registrar o estatuto, constituir o CNPJ e dar à abPod a estrutura institucional e jurídica que um mercado do tamanho do nosso exige. Pode parecer técnico, e em parte é. Mas o que essa formalização representa é a possibilidade de a associação operar com legitimidade plena, firmar parcerias, conduzir projetos, sustentar a PodPesquisa, dialogar com órgãos públicos e com a indústria sem a fragilidade de quem opera no improviso. É a infraestrutura silenciosa que destrava tudo o que vem depois.

Olhando para trás, a sensação é de gratidão pelas mãos que passaram por aqui antes da nossa. Olhando para frente, a sensação é de responsabilidade. O podcast brasileiro ainda tem muito caminho para andar: mais representatividade, mais sustentabilidade econômica para quem produz, mais reconhecimento institucional, mais pesquisa, mais diálogo entre os elos do ecossistema. A abPod existe para que essa caminhada não seja solitária, e para que cada novo passo encontre uma entidade pronta a apoiar.

Vinte anos é um bom número para celebrar, e um número melhor ainda para reafirmar compromisso. Seguimos. Com escuta, com pluralidade, com o cuidado de quem entende que mercado se constrói no longo prazo, e com a alegria sincera de quem sabe que o melhor capítulo do podcast no Brasil ainda está por ser escrito.